
30.09.2026
Conversas da Ilha: Ricardo Ribeiro aka Xolim
Ricardo Ribeiro, aka Xolim, é uma figura do surf nos Açores, tendo fundado projetos como o Azores Surf Center ou o Festival Sargo, que se realiza anualmente no mês de março, promovendo a fusão da criatividade com a celebração e protecção do oceano e comemorando a Ribeira Grande como a “Capital do Surf nos Açores”.
Natural da Vila Real de Santo António, no Algarve, mudou-se para São Miguel para estudar Relações Públicas, e não quis mais sair do arquipélago – o estar rodeado de mar falou mais alto. Foi treinador na escola de surf do Clube Naval de Ponta Delgada, criada em 2009, tendo treinado Jácome Correia, um dos mais conhecidos surfistas açorianos da sua geração. Um percurso intimamente ligado ao mar, com início em Sagres, onde começa a surfar, e hoje em São Miguel, fundindo o amor pelas ondas com o respeito pelos oceanos e pelos seus ecossistemas.
1. Nasceste em Portugal continental, mas acabaste por construir este projeto de vida em S. Miguel. Foi uma escolha intencional?
Foi. Eu vim para cá em 2003 para tirar o curso de Relações Públicas e Comunicação. Sempre foi um objetivo meu ter um percurso académico, mas obviamente tinha que ser num sítio que tivesse mar e ondas! Essa era a prioridade principal. Sempre quis viver numa ilha, tinha cá uma grande amiga a viver que me ajudou nessa fase inicial, e juntaram-se os fatores todos. Quando cheguei e comecei a conhecer a ilha, só pensava: “Como é que isto não é mais conhecido a nível mundial?”. Fala-se do Havai, das Maldivas… e nós aqui temos hot springs, ondas, natureza por todo o lado, cultura e segurança. É um paraíso autêntico. E cá estou até hoje.
2. Como foi crescer no Algarve e qual é a tua ligação inicial ao surf?
Eu nasci em Vila Real de Santo António. O mar e o surf sempre foram o mais importante para mim e o meu grupo de amigos. Como a nossa costa sul tem poucas ondas, o nosso hábito era ir até Sagres. Hoje há a Via do Infante, mas há 30 anos íamos pela EN125 (uma estrada nacional algarvia), demorávamos umas duas horas a lá chegar. Éramos miúdos, tínhamos de arranjar o pai ou o irmão mais velho de algum amigo que nos levasse. Era sempre uma missão e a coisa era muito wild, os locais eram poucos. Mas foi uma fase muito especial, descobríamos a costa, as ondas… Se não houvesse ondas, íamos pescar, mergulhar ou fazer canoagem. Foi o que lavrou o caminho até onde estou hoje e o que mais me influenciou como pessoa.
3. És amplamente associado a diversas iniciativas ligadas ao surf e ao mar. O que te leva a criar?
Acho que foi o desenrolar natural das oportunidades e da minha paixão pelo surf. O meu percurso começou em 2009, um pouco pelo telhado: comecei a dar treinos de competição no Clube Naval de Ponta Delgada a miúdos que já sabiam surfar muito bem como João “Tricky” Alves, o Diogo Garoupa ou o Jácome Correia. O projeto foi um sucesso muito grande. Soubemos que estávamos no bom caminho quando, na primeira prova num circuito nacional, o Garoupa chegou logo à final. O próprio Jácome Correia acaba por tornar-se campeão nacional de sub-14 e sub-16.
Foi um boom enorme para nós! Com o passar do tempo, senti necessidade de abdicar do Clube Naval e criar, com a minha mulher, a Josie, o Azores Surf Center (focado em quem quer aprender a surfar ou aperfeiçoar as suas competências de surf) e o Azores Surf Club (uma associação para formar crianças, desde a iniciação à competição). Mais recentemente, com o meu amigo e sócio Luís Baldini, criámos o Sargo. A essência do festival é misturar surf e arte, que evoluiu para um festival com cinema, intervenções artísticas no concelho (como a que fizemos na edição deste ano nos Fenais da Ajuda, que tens de ir ver), mas também beach market e conversas de educação ambiental e sobre a preservação dos oceanos.
4. O que mais gostas de descobrir no teu trabalho?
Gosto de descobrir como fazer as coisas acontecerem não só fechadas num sítio, mas espalhadas pelo concelho, envolvendo as pessoas. Na minha perspetiva, quanto mais adicionamos a um trabalho, seja ele lugares, pessoas, visões artísticas e pessoais diferentes, tudo isto forma algo muito maior do que o planeado. No Sargo, por exemplo, a ideia é ter intervenções artísticas pontuais, que se tornem especiais, em vez de encher tudo com graffiti ou arte urbana em excesso. Gosto dessa descoberta de criar um molde para o festival que seja atrativo e que, ao mesmo tempo, partilhe conhecimento e entretenimento com quem vive cá.

5. A última pessoa, livro, imagem, objeto, música que te inspirou?
A minha inspiração vem do dia a dia. É estar atento e não deixar passar um dia banal. O segredo é manter a curiosidade acesa. Agora, com os meus dois filhos cá em casa (o Koah com cinco anos e a Maya com dois), esse espírito de descoberta fomenta-se ainda mais. Uma coisinha simples que para nós não tem importância, para eles é magia. Eles são recém-chegados a este mundo, então tudo para eles é ”overwhelming”, uma árvore, o sol, um arco-íris. Isso lembra-me o fascínio de viver.
6. Diz-nos algo que te traz tranquilidade.
No meio das incertezas do dia a dia, o que me traz a mais profunda tranquilidade é a certeza de que a minha família está bem. Saber que as pessoas que amo estão seguras, saudáveis e com um teto e comida na mesa é o meu verdadeiro porto seguro. Garantir este bem-estar e saber que nada lhes falta permite-me respirar fundo.
7. O que procuras quando viajas?
Aqui temos duas fases diferentes. Antes de termos filhos, o surf era sempre o mote para mim e para a Josie. Fomos às Maldivas quando o Koa tinha apenas 6 meses, numa viagem de surf brutal. Atualmente, tentamos ir mais ao encontro dos interesses deles, sem descurar totalmente os nossos. Eles gostam de natureza, de ir ver castelos. Temos explorado o interior de Portugal, coisas que antes eu não tinha grande interesse em conhecer e que agora, com eles, é espetacular descobrir.
8. O que nunca falta na tua mala de viagem?
Um kit de primeiros socorros para eles, de certeza! O sentido de sobrevivência e o cuidar falam mais alto.
9. Alguma vez sentiste a insularidade por viveres numa ilha?
Nunca senti, até porque viver numa ilha rodeado de mar era aquilo que eu sempre quis. Mas acho que o segredo de viver numa ilha, ou em qualquer lado do mundo, é teres um drive na vida. Algo que te faça levantar da cama com um propósito. Para mim é o surf, o meu trabalho e a minha família. Teres uma paixão, fazeres o que gostas e teres um grupo de amigos com quem te identificas e com quem podes partilhar tudo. Com isso, vives bem em qualquer parte.

10. Com quem gostarias de ficar preso numa ilha?
Com a minha mulher, de certeza absoluta! (Ri-se)
11. Melhor sítio para dar um mergulho?
Água d’Alto, sem dúvida.
12. Uma memória, lugar ou cheiro de São Miguel?
A estrada que vai para as Capelas no verão, quando fica completamente cheia de “novelões” (as hortênsias). Quando vim para cá viver, tinha de ir muitas vezes trabalhar para São Vicente numa mota. Lembro-me de passar nessa estrada e parecer que estava dentro de um sonho.
13. O que é para ti o “The Art of Living”?
Tenho pensado um bocado nisso ultimamente. Para mim, é garantires que a tua presença no mundo seja o menos ofensiva possível para a natureza e para os outros. É seres o menos invasivo que conseguires. A tua passagem por este plano tem de ser algo positivo, tem de acrescentar valor e ajudar o sítio onde vives, e não o contrário.