03.09.2026

O som da Marralhinha

Se passarem tempo suficiente numa casa açoriana, é muito provável que acabem a ouvir um som característico: o clique seco e rítmico de pequenos berlindes de vidro a bater contra a madeira. Esse é o som da Marralhinha, um jogo de tabuleiro tradicional que faz parte da mobília (e da rotina) de muitas famílias nas ilhas.

A origem da Marralhinha conta, por si só, uma parte curiosa da história recente dos Açores. Acredita-se que o jogo ganhou raízes em meados do século XX na Ilha Terceira, nascido a partir dos tabuleiros de jogo que os militares americanos traziam consigo para a Base das Lajes. O que começou por ser um passatempo estrangeiro (provavelmente o jogo Aggravation) foi rapidamente adotado, e devidamente adaptado sendo esculpido em madeira de pinho e criptoméria pelos artesãos locais. Com o tempo, tornou-se num verdadeiro fenómeno cultural micaelense e terceirense.

Como se joga Marralhinha (e se convive)

A mecânica é simples, mas cheia de peripécias. Joga-se num tabuleiro de madeira robusta com quatro braços em forma de cruz. Cada jogador tem cinco berlindes (as “marralhinhas”) e o objetivo é dar a volta completa ao tabuleiro e levá-los em segurança até à casa final. No entanto, há regras que ditam o ritmo da tarde: só se pode sair da base quando o dado rola um 1 ou um 6. Aliás, o número 6 dá sempre o direito de jogar de novo. Pelo caminho, há atalhos através do centro do tabuleiro e, claro, a hipótese de calhar na mesma casa de um adversário, mandando o seu berlinde impiedosamente de volta à estaca zero. Joga-se muito a pares, num verdadeiro espírito de equipa, onde o parceiro que termina primeiro junta as suas jogadas para ajudar o outro a concluir.

O jogo pode parecer um pouco confuso à primeira, mas, como a maior parte das coisas, com um pouco de prática, aprendemos como se faz.

No Moinho da Areia felizmente temos a Cristina, que para além de ser uma pessoa extraordinária, também é uma jogadora formidável de Marralhinha, e está sempre disponível a ensinar como se joga (embora não te vá facilitar a vida).

Uma pausa analógica 

A beleza da Marralhinha não está apenas nestas regras, mas naquilo que o jogo naturalmente provoca: obriga-nos a sentar à mesma mesa e a abrandar. The Art of Living é também estes pequenos rituais. São a desculpa perfeita para abrir uma garrafa de vinho ao final do dia, preparar um bule de chá e passar uma ou duas horas a conversar com quem viaja connosco, sem olhar para o relógio ou à procura de notificações no ecrã.

Se durante a estadia o outono e a chuva micaelense que às vezes aparecem na primavera ou no verão convidarem a ficar por dentro de portas, ou se simplesmente precisarem de descansar as pernas depois de um dia de trilhos, puxem de um tabuleiro. 

O verdadeiro estilo de vida açoriano também passa por saber aproveitar uma tarde tranquila, em que a única urgência é esperar que os dados rolem a nosso favor.